sábado, 31 de outubro de 2009

- pequenino;

É incrível, aquele pequenino tão forte, tão perfeito, já me traz reviravoltas. Tão frágil... minha fé pende sobre a fineza de uma agulha. Tanto temi, intimamente, que o pior acontecesse; pessimismo inalterável, é. Mas aqueles vinte minutos... Saudável, disse o médico, e eu ri, ri como se me dissesse que o mundo já não é mais tão injusto. Como poderia haver qualquer erro ou má intenção, se aquele pequenino estava ali, se ele existia, impecável, lindo, grandioso... Como o futuro seria ruim, se ele está a caminho, se aquelas mãozinhas estão abertas para o mundo? Ah, me senti, como me senti. Eu sinto hoje as palavras pequenas como nunca vi. Nada é suficiente perto daquela sensação. Eu ri e chorei, e acreditei que havia um Deus que consertaria todas as coisas - como poderia não haver? Como o mundo pode estar perdido sem ordem nem razão, se meu sobrinho cresce perfeito, saudável, e absurdamente lindo? Meu menininho. Devo tanto... Agradeço tanto. Perto daquilo, esqueço tudo, e só ele importa. Meu passado não é mais. Obrigada.

(ah, tá bobo, né? mas eu tô boba. ultrassom *-*)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

- caixa de pandora;

Libertei todos os monstros. Eles me rondam, agora, e posso ver todos eles como nunca pude - ou nunca quis. Não quero sentir dor, mas sei que preciso, pois guardá-los de novo seria peso demais, e todo o esforço teria sido em vão... Então eu corro. Eu corro enquanto as lembranças cegam meus olhos, e não percebo quando trombo com um ou com outro. Eu continuo correndo mesmo quando só o que posso ouvir é você rindo de mim enquanto... Ah, corro mais, sinto as lágrimas na horizontal, mas sei que valerá a pena se não parar de correr. Agora eu posso soluçar. Não me falta mais fôlego. Como nunca pude, eu posso agora, e sei que a dor que me aferroa os músculos é melhor do que a que está prestes a me alcançar. Eu corro, mesmo que não funcione, e dói. Os monstros estão agora por todos os lados, e eu tenho medo, porque eles não querem ir embora, por mais que eu grite e esperneie. Por tanto tempo estiveram tão calmos, não sabia que teriam toda essa força... Minha força, pois sem mim eles não são nada, e sem eles eu não sou eu. Eles me definem, mesmo escondidos, todo esse tempo. Quem eu serei agora? Não quero saber, não quero falar, quero esquecer tudo, mas correr não adianta. Eu preciso senti-los, mas não quero... não de novo. Não quero aguentar. Então, ah, eu corro mais. Eles voam, planando sobre o chão, mais velozes do que eu, e me dominam. Tento erguer a mão, mas eles já estão dentro de minha cabeça. Eu tenho medo. Eu não quero mais. Eu grito e choro, me deixa. Bato os pés, eles podiam ir embora. Mas, diabos, sem eles eu não sou eu. E, sem mim, eles não são nada.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

- a dor;

No outono, a brisa empurra levemente as ramas e em sua sutileza desprende as velhas folhas... uma a uma... que caem numa sutil dança de sofrimento, transformando a paisagem em um mosaico de galhos secos delicadamente melancólico e poético. Tão simples, como as parreiras de solo pobre e clima severo trazendo em seu sofrer os melhores vinhos. Tão verdadeiro como o choro de um rebento em sua primeira inspiração. Dor! Turva a inércia dos boçais em futuro pródigo, inibe o colapso estático da morte, rompe retrógrados paradigmas. Transforma! Transforma em algo bom aquilo que não pode ser vivido.
Em seu balançar, o pêndulo do velho relógio agride silenciosamente o ar em sua dinastia de escrever o tempo. Um barco singra sorrateiro o espelho dos rios, rasgando sua face serena em busca de seu destino. O rigor do movimento fere as centelhas da vida, muitas vezes percebido apenas no estrondo das remotas geleiras rompidas pelas estações mais quentes, mas quase sempre dissimula as grandes máculas que há escondidas na solidão de um poeta.
Ostentar a dor como a morada, torna-se nobre quando o destino é traduzido nas escolhas mais certas. E quando as chagas acalentam os sentidos pela vida em sua plenitude, pelos sonhos bons, pelo sacrifício a quem se ama. Então clamo: Que venham os colossais tornados e vulcões! Que sangrem as terras, revolte os mares e arrebatem o tudo! E por fim, curvem seu ápice em meu peito!... pois sereno... viverei a beleza sublime de sofrer por alguém que vale a pena.

(meu exemplo - meu pai.)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

- Zé Balinha e os artifícios vigentes;

Era José Mário da Bala, José Mário de nascença e o resto dos botecos de São Paulo. Sustentava-se como funcionário da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, e trabalhava de cinco a sete horas por dia, com variações, alternando entre o sono e a sede da tarde. Conhecia a periferia e certos brejos do centro, graças às andanças que o ganha-pão lhe provinha. Três de seus trinta e dois anos - glamourosos anos, como costumava dizer - foram dedicados à EMTU, os dois primeiros como motorista, agora como cobrador. Anunciava as maravilhas do ofício como se fosse rei das ruas da metrópole, e conhecesse cada andar de seus prédios culminantes, ou prevesse suas chuvas e enchentes abundantes do verão. Com o tempo e a praticidade nata do trabalhador, desenvolvera uma habilidade instintiva para com o negócio. Dormia facilmente com as chacoalhadas do ônibus, o fechar de olhos se tornara um processo natural. Mas, à primeira pisada no freio do motorista, alertava-se e ali estava, pronto para as contas e o dinheiro, tanto que parou de dormir à noite - lhe faltavam os trambolhões. Tinha quatro filhos, dois meninos e duas meninas, porque acreditava no amor e não em Deus. A esposa, Maria da Anunciação, o chamava de Zé Balinha, assim como os íntimos, e a cada filho deram o nome de seus pais e mães. Arminda, Marta, João e Clauzins estudavam na escola pública ao lado de casa, e José Mário os via só à noite, e na missa aos domingos. Era cristão por conveniência, para evitar que Maria lhe falasse sobre os pecados e o coisa ruim. Conheceram-se e casaram-se na capelinha de Santa Efigênia, duas ruas acima da residência modesta, e José Mário virou cristão para que ela o amasse. Não tinha fé no céu, no inferno ou na danação eterna, só queria morrer de velhice, e ser enterrado num daqueles caixões sem estofado que lhe lembrassem o ônibus, para que pudesse descansar em paz, e sonhar com vaivéns. Diria-se no epitáfio: Aqui jaz José Mário da Bala, rei das ruas, que dorme sacolejando. Pareceu-lhe adequado dizer isso à mulher, que pestanejou e piscou os olhos ignorantes, sem entender, mas prometeu cumprir o que lhe dissera. Mal sabia Zé Balinha, ou tampouco Maria da Anunciação, muito menos Arminda, Marta, João e Clauzins, que a morte o levaria cedo, num dia de verão da semana seguinte, por um acidente envolvendo o ônibus do ofício, um prédio culminante, uma enchente fatídica e alguns pedestres, na frente da sede da EMTU, ao final de trinta e dois glamourosos anos de império metropolitano e descrença cristã.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

- a-explicação-que-não-explicou-nada;

O amor. É assim que minha mente raciocina quando penso em como começar um texto. Sempre frases do tipo O amor em sua forma mais simples, ou O amor de sempre, e quase nunca. Meio enigmático, eu sei, mas é irritante. Ele me dá começos, depois eu fico empacada pensando em como continuar... Porque eu nunca sei sobre o que vou escrever no começo, juro. Só abro a merda da página de postagem e fico sobrecarregando minha mente, que na maioria das vezes faz uma birra imensa até sair alguma coisa. E gostar dessa coisa é algo extremamente raro.
Na verdade eu decidi postar para tentar explicar porque eu não ando postando (entendeu?), e já estou me confundindo toda; o básico. Na verdade, sempre que eu faço um texto sem delírios complicados ou com sinceridade em excesso, sai essa bosta. É irritante (já disse isso?). Um monte de palavrões embolados com alguns conectivos e ironias sem humor, que demora três parágrafos e meio para dizer o que normalmente sairia em três palavras. Imagina quando eu resolver terminar o meu livro (não achei palavra melhor, mas está mais para um protótipo de livro, ou um projeto de livro. Quem sabe até um esboço de projeto de livro), a nhaca que não vai sair.
Ok, sem enrolações. Não estou muito certa, mas o motivo das minhas ausências prolongadas daqui tem alguma coisa a ver com O-estudo-para-vestibular, A-gripe-suína-infernal, A-gravidez-da-minha-cunhada, O-tédio, A-ausência-de-livros-estimulantes e etc. Minha mente já está lotada e pedindo obras revolucionárias. Está pior que ônibus em horário de almoço ou trânsito para descer a serra em feriado. Um inferno. Acho que precisava de um coma induzido por uns dias, só para ver se a situação melhora aqui. De qualquer forma, eu só consigo escrever (decentemente, amigo) com a cabeça limpa (ou mal-lavada, não vamos exagerar, certo?). E isso, ultimamente, está difícil.
Comecei falando de amor e vou acabar falando de amor, só para deixar esse texto um pouquinho mais aproveitável e com algum simbolismo estilo hollywood. Fiquei uns cinco minutos olhando para a página de postagem aqui pensando no que falar. Se revisar este blog, você vai perceber que eu já viajei demais sobre esse assunto - de todos os ângulos possíveis. É que o amor é mesmo um merdinha de um traiçoeiro, sabe, que me acelera os pensamentos até eu não entender nada. Vira-casaca. Vamos fazer assim? Eu termino esse texto e finjo que não estou ligando. E você faz o favor de fingir que acredita. Ok?

(o texto mais idiota da minha vida, bjs.)

sábado, 8 de agosto de 2009

- vermelho-sangue;

A caneta escorregava da minha mão suada, mas eu não parei. Sabia que seria impossível continuar depois que parasse. Abri minha mente para cada detalhe tão escurecido pelo tempo, e percebi que lembrava de tudo, como se fosse ontem, como se eu tivesse revivido cada lembrança dia após dia, ano após ano. Percebi que tremia, mas não parei, não tirei os olhos do papel, nem quando as lágrimas começavam a cair e borrar o que eu acabara de escrever. Soluçar tornava tudo mais difícil ainda. Tentei respirar fundo, mas o ar parecia estar preso na minha garganta. Soltei a caneta, automaticamente, quando as lembranças ficaram mais cruéis. Enterrei a cabeça nas mãos, joguei algumas coisas na parede, roí as unhas até a carne, e voltei a escrever. Minhas mãos pesavam como chumbo. Fora apenas o começo, mas eu me sentia exausta. Cada pedacinho do meu corpo me dizia para desistir e não lembrar mais. Toda a minha covardia gritava nos meus ouvidos, você não vai conseguir, não vai conseguir. Mas eu continuei. Eu sabia que seria horrível, e sabia que precisaria de uma força que não tinha; sabia que talvez chegasse em limites que nunca chegara antes, mas não parei. Minhas mãos ficaram mais suadas ainda do esforço, e uma das minhas unhas chegava a sangrar. O vermelho do meu sangue me cegou os olhos, e agora eu não chorava mais, só escrevia, furiosamente, como se minha vida dependesse disso. E talvez dependesse mesmo. Mas não importava, mesmo que não desse certo, mesmo que fosse tudo inútil. Não importa no que isso vai dar. Eu só continuei escrevendo, e vou continuar, até que não reste mais nada para lembrar.

domingo, 2 de agosto de 2009

- vasos, mesas, cristais e a ira.

Fechei os olhos e estilhacei todos eles. Opacos, brilhantes e odiosamente delicados, sobre mesas de cristal reluzentes e quebradiças. Arremessei-os pela sala e vi o verde se misturar com o vermelho quando os cacos se espalhavam. Acrescentei um azul à mistura. Gordos, magros, compridos, baixinhos; são todos a mesma coisa quando se quebram. Virei mesas com toda a força que podia, sentindo o vibrar das paredes quando desabavam no chão. Seria capaz de dar risada se não estivesse tão furiosa. Achei umas taças, quebrei-as também, e agora o chão era uma miscelânia tão colorida que me dava dor de cabeça. Isso só me deixou mais nervosa, e agarrei uma coleção de vasos coloridos tão idênticos que me insultavam. Pisei nos cacos que restaram com uma fúria doentia, sentindo o estalar fraco quando quebravam novamente, cada vez menores, até que um pó brilhante grudou na sola dos meus pés descalços - e sangrentos, reparei. Continuei chutando tudo que podia, e cada chute era um protesto contra tudo que era certo, tudo que me lembrava do quando eu podia ser errada, do quanto eu podia ser horrível. Estilhacei a suavidade, a ordem, o caráter. Agora eu quase não podia ver o branco das paredes, e gritei de raiva, pois até em pedaços eles me impediam de não me importar, e eu não queria. Não queria mais fazer esforço nenhum. Cada caco de cristal refletia tudo que eu não queria mais ver, agora multiplicado mil vezes. Milhares de olhos zangados me fitavam e eu sabia que eram meus. Minha aparência era repugnante, e só o que pude fazer foi lutar mais, mesmo sabendo que era em vão. Desabei e me afoguei em pós multicoloridos, sentindo um prazer histérico ao conseguir diminuí-los o suficiente.
Abri os olhos. Minha ira ainda era a mesma.