Farei da solidão uma pessoa e do azar uma benção. Farei poesia das tristezas e nada nunca vai doer. É, é assim que eu vou arrumar a minha vida. Mentaliza, pessoal. Vibrações positivas ajudam. É só acreditar! Tudo ficará bem, é só você entrar naquela igreja da esquina, sabe, que é pobre mas honesta e tem fé em Deus. Todo poderoso. Ele me ama, sabia? E eu tenho que amá-lo. É melhor obedecer, cara, tá nos mandamentos. Senão, o demônio, ó. Só não esquece do dízimo. É tudo tão lindo e feliz que eu vou acordar todo o dia pra ver o sol nascer. Vou correr pela rua com um shorts esportivo e um sorriso colgate. Darei bom dia para todo mundo, que lindo! Porque todo mundo realmente se importa comigo, oh, Sadiaaa! Exatamente, coma presunto todas as manhãs, com maionese hellmans e bisnaguinha panco, você será feliz. Todo mundo vai te amar, de verdade, cara. Tá na TV. A gente se vê por aqui! Engraçado, eu não me vejo em porra de lugar nenhum. Mas tudo bem, nem tudo está perdido. Vá ver um psicólogo, tome uns antidepressivos e veja como o mundo é fodão. Acorde todo dia e agradeça pelo ar que respira. E não esquece do filtro solar! Não, pense pelo lado bom, você tem saúde. Pensa cara, olha que sorte: você não tem câncer, taram! Nada pode te machucar. Amigo, isso aí é tédio, sério. Você está triste só porque você quer. Tem tanta coisa boa pra se ver... só não olha para aquele lado ali, ok? Combinado? Beleza então, continue em frente. Nada acontece por acaso. Nadinha! Tudo que vai volta, tá vendo aquele filho da puta ali? Relaxa. Um dia ele vai ter o dele. Só não espera de pé. Grande justiça do mundo! E você aí triste, por nada. Tsc, tsc. Decidi: a partir de hoje eu vou ser feliz, não importa o que aconteça! Sabe porquê? O amor existe, cara, não é o máximo? Tá todo mundo super interessado nele e nos benefícios que ele traz. Fique feliz por isso! Porque realmente, todo mundo se interessa se você está bem ou não. Sério! Você mora num condomínio com câmeras e porteiros que te amam e te protegem. Nada pode te acontecer. Ninguém vai te machucar. Iupi. Você não está sozinho. Deus sempre estará contigo! E não, claro que nada disso é clichê: funciona! Mudou a minha vida. Vá para o Emagrecentro mudar a sua.
(FODAM-SE:)
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
- prisma, miscelânia, balança e salto;
Miscelânia, adoro essa palavra, miscelânia. É um tudo muito mais bonito. Assim que vejo as coisas: um redemoinho colorido que até me lembra uma nuvem às vezes... É assim que eu vejo. No meio de tanta cor pra se olhar, quem vai prestar atenção nas sombras negras que às vezes cobrem tudo? Nem eu reparo, se eu não quiser. Mas é difícil não querer... eu sou a única que sei o quanto elas estão ali. O quanto elas podem cobrir se eu deixar de me esforçar por um instante. Porque ninguém sabe o quanto a miscelânia pode ser frágil. Ninguém sabe que todas as minhas cores ficam quase... transparentes às vezes. Sinto tudo ali e de repente, num suspiro, numa lágrima, num solavanco... lá se vão.
E minhas emoções, então, como um facho de luz. Basta um prisma pra que descubram todos os meus segredos. Eu não saberia me entender de outro jeito... A balança pende de um lado para o outro, coisas boas, coisas ruins. Ah, tão irreversivelmente racional que até me irrita... sou a única pessoa do mundo que consegue ser tão racional e irracional ao mesmo tempo; tudo por causa da miscelânia: ela me sobrecarrega. Eu pifo. E então posso ser qualquer coisa, posso dançar sem música. Cores e luzes e ah, esse texto é feito só disso. Posso vê-las passando por meus olhos, qualquer um poderia vê-las se quisesse. Eu acho.
Mas minhas cores estão meio apagadas e o medo é uma sombra constante. Minha janela me traz a luz do dia e o mistério da noite. O caso é que as sombras me assustam, principalmente quando vem uma daquelas que me fazem perceber o quanto tudo está perto do fim. Perto, e longe, cabe a mim e ao acaso decidir. Pois uma decisão errada, um momento impensado, um prisma que cega os olhos, um salto: e pronto, acabou-se tudo.
(ir-ra-cio-nal.)
E minhas emoções, então, como um facho de luz. Basta um prisma pra que descubram todos os meus segredos. Eu não saberia me entender de outro jeito... A balança pende de um lado para o outro, coisas boas, coisas ruins. Ah, tão irreversivelmente racional que até me irrita... sou a única pessoa do mundo que consegue ser tão racional e irracional ao mesmo tempo; tudo por causa da miscelânia: ela me sobrecarrega. Eu pifo. E então posso ser qualquer coisa, posso dançar sem música. Cores e luzes e ah, esse texto é feito só disso. Posso vê-las passando por meus olhos, qualquer um poderia vê-las se quisesse. Eu acho.
Mas minhas cores estão meio apagadas e o medo é uma sombra constante. Minha janela me traz a luz do dia e o mistério da noite. O caso é que as sombras me assustam, principalmente quando vem uma daquelas que me fazem perceber o quanto tudo está perto do fim. Perto, e longe, cabe a mim e ao acaso decidir. Pois uma decisão errada, um momento impensado, um prisma que cega os olhos, um salto: e pronto, acabou-se tudo.
(ir-ra-cio-nal.)
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
- só na teoria
Com o avanço no conhecimento a que chegamos hoje, é possível uma análise mais detalhada sobre as idéias e expectativas provenientes de cada fato histórico. Ao compararmos o que nossos antepassados esperavam do mundo ao que ele realmente é, várias ilusões se contrastam com a realidade.
Há apenas vinte anos, o maior símbolo da divisão do mundo entre duas ideologias ia ao chão, e as pessoas esperavam um futuro próximo de união e paz. A mesma expectativa de inclusão e homogeneidade foi originada na mente dos brasileiros quando nosso país se tornava uma república, em 1889, o modelo político das grandes potências. Essa visão idealizada de um mundo mais uniforme vem se firmando ao longo dos anos, uma mistura de sonho capitalista e igualitário, pela qual tantas mudanças foram realizadas, desde a Revolução Francesa.
E o que conseguimos com tudo isso está claro nos dias de hoje. Metodicamente falando, a era capitalista está no seu auge, como o esperado; e a cultura mundial se massifica numa só. Mas será que é isso que buscávamos? Os ideais de igualdade e solidariedade pelos quais tantas mortes ocorreram só existem na teoria; não é isso que conta para a justiça, a lei, o poder executivo. O que as pessoas pretendiam ao reivindicar mudanças era uma inclusão social, uma justiça mais cega, uma distribuição dos privilégios; não é essa a essência de nossa evolução. O fundamento da globalização é a manipulação das massas, e só parte do mundo está sujeita a ele. As desigualdades são gritantes por todos os lados: entre países, entre estados, entre pessoas que vivem na mesma rua.
Tanta coisa mudou, e tantas outras permanecem até hoje. O muro de Berlim caiu, a União Soviética não existe mais, mas Cuba sofre até hoje com um bloqueio econômico já sem fundamento. O mundo que foi projetado torna-se uma utopia, que se consolida a cada aceitação silenciosa a que nos sujeitamos todos os dias.
A verdade é que a justiça do mundo não depende de modo objetivo do regime político sob o qual vivemos, ou de quanta informação chega até nós. A igualdade é feita por pessoas, pelos seus interesses, e por suas diferenças. O mundo não é uma mentalidade só, e não poderá ser enquanto cada um não ceder uma parte de seus desejos e aceitar algo completamente diferente. E, até que isso aconteça, as revoluções e lutas ideológicas realizadas até hoje terão sido em vão.
(dissertações políticas indignadas mode on)
Há apenas vinte anos, o maior símbolo da divisão do mundo entre duas ideologias ia ao chão, e as pessoas esperavam um futuro próximo de união e paz. A mesma expectativa de inclusão e homogeneidade foi originada na mente dos brasileiros quando nosso país se tornava uma república, em 1889, o modelo político das grandes potências. Essa visão idealizada de um mundo mais uniforme vem se firmando ao longo dos anos, uma mistura de sonho capitalista e igualitário, pela qual tantas mudanças foram realizadas, desde a Revolução Francesa.
E o que conseguimos com tudo isso está claro nos dias de hoje. Metodicamente falando, a era capitalista está no seu auge, como o esperado; e a cultura mundial se massifica numa só. Mas será que é isso que buscávamos? Os ideais de igualdade e solidariedade pelos quais tantas mortes ocorreram só existem na teoria; não é isso que conta para a justiça, a lei, o poder executivo. O que as pessoas pretendiam ao reivindicar mudanças era uma inclusão social, uma justiça mais cega, uma distribuição dos privilégios; não é essa a essência de nossa evolução. O fundamento da globalização é a manipulação das massas, e só parte do mundo está sujeita a ele. As desigualdades são gritantes por todos os lados: entre países, entre estados, entre pessoas que vivem na mesma rua.
Tanta coisa mudou, e tantas outras permanecem até hoje. O muro de Berlim caiu, a União Soviética não existe mais, mas Cuba sofre até hoje com um bloqueio econômico já sem fundamento. O mundo que foi projetado torna-se uma utopia, que se consolida a cada aceitação silenciosa a que nos sujeitamos todos os dias.
A verdade é que a justiça do mundo não depende de modo objetivo do regime político sob o qual vivemos, ou de quanta informação chega até nós. A igualdade é feita por pessoas, pelos seus interesses, e por suas diferenças. O mundo não é uma mentalidade só, e não poderá ser enquanto cada um não ceder uma parte de seus desejos e aceitar algo completamente diferente. E, até que isso aconteça, as revoluções e lutas ideológicas realizadas até hoje terão sido em vão.
(dissertações políticas indignadas mode on)
sábado, 31 de outubro de 2009
- pequenino;
É incrível, aquele pequenino tão forte, tão perfeito, já me traz reviravoltas. Tão frágil... minha fé pende sobre a fineza de uma agulha. Tanto temi, intimamente, que o pior acontecesse; pessimismo inalterável, é. Mas aqueles vinte minutos... Saudável, disse o médico, e eu ri, ri como se me dissesse que o mundo já não é mais tão injusto. Como poderia haver qualquer erro ou má intenção, se aquele pequenino estava ali, se ele existia, impecável, lindo, grandioso... Como o futuro seria ruim, se ele está a caminho, se aquelas mãozinhas estão abertas para o mundo? Ah, me senti, como me senti. Eu sinto hoje as palavras pequenas como nunca vi. Nada é suficiente perto daquela sensação. Eu ri e chorei, e acreditei que havia um Deus que consertaria todas as coisas - como poderia não haver? Como o mundo pode estar perdido sem ordem nem razão, se meu sobrinho cresce perfeito, saudável, e absurdamente lindo? Meu menininho. Devo tanto... Agradeço tanto. Perto daquilo, esqueço tudo, e só ele importa. Meu passado não é mais. Obrigada.
(ah, tá bobo, né? mas eu tô boba. ultrassom *-*)
(ah, tá bobo, né? mas eu tô boba. ultrassom *-*)
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
- caixa de pandora;
Libertei todos os monstros. Eles me rondam, agora, e posso ver todos eles como nunca pude - ou nunca quis. Não quero sentir dor, mas sei que preciso, pois guardá-los de novo seria peso demais, e todo o esforço teria sido em vão... Então eu corro. Eu corro enquanto as lembranças cegam meus olhos, e não percebo quando trombo com um ou com outro. Eu continuo correndo mesmo quando só o que posso ouvir é você rindo de mim enquanto... Ah, corro mais, sinto as lágrimas na horizontal, mas sei que valerá a pena se não parar de correr. Agora eu posso soluçar. Não me falta mais fôlego. Como nunca pude, eu posso agora, e sei que a dor que me aferroa os músculos é melhor do que a que está prestes a me alcançar. Eu corro, mesmo que não funcione, e dói. Os monstros estão agora por todos os lados, e eu tenho medo, porque eles não querem ir embora, por mais que eu grite e esperneie. Por tanto tempo estiveram tão calmos, não sabia que teriam toda essa força... Minha força, pois sem mim eles não são nada, e sem eles eu não sou eu. Eles me definem, mesmo escondidos, todo esse tempo. Quem eu serei agora? Não quero saber, não quero falar, quero esquecer tudo, mas correr não adianta. Eu preciso senti-los, mas não quero... não de novo. Não quero aguentar. Então, ah, eu corro mais. Eles voam, planando sobre o chão, mais velozes do que eu, e me dominam. Tento erguer a mão, mas eles já estão dentro de minha cabeça. Eu tenho medo. Eu não quero mais. Eu grito e choro, me deixa. Bato os pés, eles podiam ir embora. Mas, diabos, sem eles eu não sou eu. E, sem mim, eles não são nada.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
- a dor;
No outono, a brisa empurra levemente as ramas e em sua sutileza desprende as velhas folhas... uma a uma... que caem numa sutil dança de sofrimento, transformando a paisagem em um mosaico de galhos secos delicadamente melancólico e poético. Tão simples, como as parreiras de solo pobre e clima severo trazendo em seu sofrer os melhores vinhos. Tão verdadeiro como o choro de um rebento em sua primeira inspiração. Dor! Turva a inércia dos boçais em futuro pródigo, inibe o colapso estático da morte, rompe retrógrados paradigmas. Transforma! Transforma em algo bom aquilo que não pode ser vivido.
Em seu balançar, o pêndulo do velho relógio agride silenciosamente o ar em sua dinastia de escrever o tempo. Um barco singra sorrateiro o espelho dos rios, rasgando sua face serena em busca de seu destino. O rigor do movimento fere as centelhas da vida, muitas vezes percebido apenas no estrondo das remotas geleiras rompidas pelas estações mais quentes, mas quase sempre dissimula as grandes máculas que há escondidas na solidão de um poeta.
Ostentar a dor como a morada, torna-se nobre quando o destino é traduzido nas escolhas mais certas. E quando as chagas acalentam os sentidos pela vida em sua plenitude, pelos sonhos bons, pelo sacrifício a quem se ama. Então clamo: Que venham os colossais tornados e vulcões! Que sangrem as terras, revolte os mares e arrebatem o tudo! E por fim, curvem seu ápice em meu peito!... pois sereno... viverei a beleza sublime de sofrer por alguém que vale a pena.
(meu exemplo - meu pai.)
Em seu balançar, o pêndulo do velho relógio agride silenciosamente o ar em sua dinastia de escrever o tempo. Um barco singra sorrateiro o espelho dos rios, rasgando sua face serena em busca de seu destino. O rigor do movimento fere as centelhas da vida, muitas vezes percebido apenas no estrondo das remotas geleiras rompidas pelas estações mais quentes, mas quase sempre dissimula as grandes máculas que há escondidas na solidão de um poeta.
Ostentar a dor como a morada, torna-se nobre quando o destino é traduzido nas escolhas mais certas. E quando as chagas acalentam os sentidos pela vida em sua plenitude, pelos sonhos bons, pelo sacrifício a quem se ama. Então clamo: Que venham os colossais tornados e vulcões! Que sangrem as terras, revolte os mares e arrebatem o tudo! E por fim, curvem seu ápice em meu peito!... pois sereno... viverei a beleza sublime de sofrer por alguém que vale a pena.
(meu exemplo - meu pai.)
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
- Zé Balinha e os artifícios vigentes;
Era José Mário da Bala, José Mário de nascença e o resto dos botecos de São Paulo. Sustentava-se como funcionário da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, e trabalhava de cinco a sete horas por dia, com variações, alternando entre o sono e a sede da tarde. Conhecia a periferia e certos brejos do centro, graças às andanças que o ganha-pão lhe provinha. Três de seus trinta e dois anos - glamourosos anos, como costumava dizer - foram dedicados à EMTU, os dois primeiros como motorista, agora como cobrador. Anunciava as maravilhas do ofício como se fosse rei das ruas da metrópole, e conhecesse cada andar de seus prédios culminantes, ou prevesse suas chuvas e enchentes abundantes do verão. Com o tempo e a praticidade nata do trabalhador, desenvolvera uma habilidade instintiva para com o negócio. Dormia facilmente com as chacoalhadas do ônibus, o fechar de olhos se tornara um processo natural. Mas, à primeira pisada no freio do motorista, alertava-se e ali estava, pronto para as contas e o dinheiro, tanto que parou de dormir à noite - lhe faltavam os trambolhões. Tinha quatro filhos, dois meninos e duas meninas, porque acreditava no amor e não em Deus. A esposa, Maria da Anunciação, o chamava de Zé Balinha, assim como os íntimos, e a cada filho deram o nome de seus pais e mães. Arminda, Marta, João e Clauzins estudavam na escola pública ao lado de casa, e José Mário os via só à noite, e na missa aos domingos. Era cristão por conveniência, para evitar que Maria lhe falasse sobre os pecados e o coisa ruim. Conheceram-se e casaram-se na capelinha de Santa Efigênia, duas ruas acima da residência modesta, e José Mário virou cristão para que ela o amasse. Não tinha fé no céu, no inferno ou na danação eterna, só queria morrer de velhice, e ser enterrado num daqueles caixões sem estofado que lhe lembrassem o ônibus, para que pudesse descansar em paz, e sonhar com vaivéns. Diria-se no epitáfio: Aqui jaz José Mário da Bala, rei das ruas, que dorme sacolejando. Pareceu-lhe adequado dizer isso à mulher, que pestanejou e piscou os olhos ignorantes, sem entender, mas prometeu cumprir o que lhe dissera. Mal sabia Zé Balinha, ou tampouco Maria da Anunciação, muito menos Arminda, Marta, João e Clauzins, que a morte o levaria cedo, num dia de verão da semana seguinte, por um acidente envolvendo o ônibus do ofício, um prédio culminante, uma enchente fatídica e alguns pedestres, na frente da sede da EMTU, ao final de trinta e dois glamourosos anos de império metropolitano e descrença cristã.
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