Entenda que falarei de fé como um observador fala de algo que não tem. O que eu quero dizer aqui não tem nada a ver com igreja ou religião; eu quero falar do coração das pessoas, da capacidade de acreditar que elas têm, e de como isso me fascina.
Eu não acredito em Deus. Não acredito que tudo que vai, volta. Não acredito na justiça automática do mundo; não consigo olhar para uma pessoa que me fez um mal enorme e pensar que um dia ela vai sofrer o que eu sofri. Acredito que a única justiça que existe é aquela feita por nós, que por um sinal não é nem um pouco justa.
Eu cresci numa miscelânea de religiões. Minha mãe acredita em tudo; meu pai em nada, só em Deus. Eles nunca tentaram me influenciar, decidiram que eu tomasse meu próprio caminho, só me falaram de suas crenças de forma imparcial. Então, à medida que eu crescia e ouvia o que as outras pessoas tinham a me dizer, eu decidia em que acreditar. Escolhia, e dizia a mim mesma "é assim". Mas sempre existiu aquela vozinha no fundo da minha consciência, que me convencia de que Deus existir seria bom demais para ser verdade. Confortante demais.
Foi assim até o dia em que eu decidi deixar que minhas teorias inconscientes se manifestassem. Eu imaginei, na minha cabeça, se todos pensassem que Deus não existia e acreditassem que nós apenas ficamos inteligentes demais, sensíveis demais, e que consequentemente precisamos acreditar que alguma coisa a mais existe. Alguma coisa que dê sentido a isso tudo. Se todo mundo pensasse assim, qual seria o maior medo das pessoas?
Pensei na morte, então. Por que se Deus não existe, se ele for apenas um fruto de conforto, depois da morte não existiria nada. Nem céu nem inferno. Pura inconsciência, para sempre. E se todos acreditassem nisso, a morte nunca seria considerada uma aventura seguinte, seria apenas um ponto final. Do que as pessoas precisariam, então? Qual seria o desejo mais profundo da maioria das pessoas? Talvez, que a morte fosse mais fácil, que fosse só um caminho desconhecido. E daí para a existência de Deus, é um pequeno passo. Não seria bom que todo o mal que alguém causasse na terra fosse pago depois que a pessoa morresse?
A minha conclusão final foi que Deus é só isso, uma resposta para os nossos medos mais íntimos, mais irracionais. E eu acho que tomei essa conclusão justamente por ser racional demais, espiritual de menos. Percebi que sempre acreditei nisso, no nada, desde o começo; nunca tinha parado para pensar. Mas isso não me faz uma pessoa corajosa, acreditar que depois da morte não tem nada, por que desde que eu descobri no que realmente acreditava eu tento desesperadamente desmentir a mim mesma.
Deixando minha ausência de fé de lado, comecei a observar as pessoas à minha volta. Tanta gente que dita suas crenças, tanta gente que as guarda para si. E em muitas eu reconheci um medo enorme de morrer que as fazia acreditar, pessoas dotadas de uma fé solúvel, impura, que era apenas fruto de um desejo inconsciente. Mas, contrariando todas as expectativas, em algumas pessoas eu vi apenas... fé. Toda a fé que eu busco o tempo todo, numa pessoa só. Uma fé tão simples, tão verdadeira, incontestável. É dessa fé que eu falo como admiradora. Para tê-la é preciso tanta coragem e sinceridade consigo mesmo, tanto amor ao que quer que for que chamam o seu Deus..
Não que eu classifique as pessoas em Com fé ou Sem fé. Há muitas pessoas que eu conheço muito bem e não saberia aonde colocar; e essa classificação me seria inútil. E se me perguntar se Deus realmente existe, eu direi que acho que não, mas não tenho certeza. Porque tem uma parte de mim que quer que ele exista, uma parte que é tão infestada de medo e insegurança que às vezes me domina, Deus tem que existir, tem que existir. Na verdade, tem horas que eu penso, tanto faz, tanto fez; o que tiver que ser, será, mesmo que eu não estiver pronta para o que vier...
sexta-feira, 10 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
- estímulo;
Sei lá, eu tenho estudado bastante, corrido bastante, saído bem menos. Tem muita gente que eu vi uma vez só esse ano. Muita gente que me faz a maior falta; sinto falta de causar nas aulas e sair todo dia para um lugar diferente. Tenho saudade de conversar sobre algo que não seja vestibular com todas as pessoas. É muito ruim essa pressão constante, parece que você está sempre atrasada, por mais que tente se adiantar.
Mas esse ano tem feito um bem enorme para mim... Eu estou tão em paz, tão tranquila. Ok, eu estou surtando por causa de vestibular e tal, mas fora isso, está tudo tão bem. Me afastei de muita gente mas me aproximei mais do que nunca de algumas outras. A pessoa fica desesperada e encontra tanta gente desesperada como ela... Eu voltei para o yoga, parei de recorrer a vícios o tempo todo, e pela primeira vez em muito tempo sinto que estou fazendo um bem enorme a mim mesma, sacrificando tanta coisa por um futuro que talvez seja o que eu preciso para ser feliz.
Ter um objetivo, e trabalhar nele como louca, é um estímulo tão forte quanto a iminência do desastre. Eu pareço uma bomba prestes a explodir, tão lotada de pressão. E, por incrível que pareça, eu estou extravasando isso de formas que me emocionam. Conversando, discutindo idéias, um patamar acima das discussões inúteis nas quais a gente costuma gastar a nossa energia. Ouvindo conselhos como nunca ouvimos antes. Absorvendo cada informação que nos leva um pouco mais perto do que sonhamos. Ter um sonho, em especial, um sonho que parece tão próximo de ser realizado. Está chegando a hora, e eu mal posso esperar para isso acabar, mas todo o cansaço vira empolgação e isso não me incomoda mais.
Quando as pessoas falam que terceiro ano é outro mundo, é mesmo. As pessoas, as rotinas, as esperanças continuam as mesmas. Mas a cabeça das pessoas muda, e se sente em casa ao perceber que todas as outras mudaram também. Eu me sinto em casa. E só ao me sentir assim eu percebi o quanto a ausência disso me fazia falta.
Mas esse ano tem feito um bem enorme para mim... Eu estou tão em paz, tão tranquila. Ok, eu estou surtando por causa de vestibular e tal, mas fora isso, está tudo tão bem. Me afastei de muita gente mas me aproximei mais do que nunca de algumas outras. A pessoa fica desesperada e encontra tanta gente desesperada como ela... Eu voltei para o yoga, parei de recorrer a vícios o tempo todo, e pela primeira vez em muito tempo sinto que estou fazendo um bem enorme a mim mesma, sacrificando tanta coisa por um futuro que talvez seja o que eu preciso para ser feliz.
Ter um objetivo, e trabalhar nele como louca, é um estímulo tão forte quanto a iminência do desastre. Eu pareço uma bomba prestes a explodir, tão lotada de pressão. E, por incrível que pareça, eu estou extravasando isso de formas que me emocionam. Conversando, discutindo idéias, um patamar acima das discussões inúteis nas quais a gente costuma gastar a nossa energia. Ouvindo conselhos como nunca ouvimos antes. Absorvendo cada informação que nos leva um pouco mais perto do que sonhamos. Ter um sonho, em especial, um sonho que parece tão próximo de ser realizado. Está chegando a hora, e eu mal posso esperar para isso acabar, mas todo o cansaço vira empolgação e isso não me incomoda mais.
Quando as pessoas falam que terceiro ano é outro mundo, é mesmo. As pessoas, as rotinas, as esperanças continuam as mesmas. Mas a cabeça das pessoas muda, e se sente em casa ao perceber que todas as outras mudaram também. Eu me sinto em casa. E só ao me sentir assim eu percebi o quanto a ausência disso me fazia falta.
sexta-feira, 27 de março de 2009
- far away from the memories;
Vanessa sentou-se no murinho do jardim e cruzou os braços, puxando o casaco para mais perto de si. Lúcio sentou-se ao seu lado, afastado. Os dois olharam para o chão.
- Van, eu não sei como te falar isso.
Ela já sabia. O desfecho da noite anterior não poderia causar um final diferente. Ela passara a noite pensando nisso. Levantou-se e puxou mais o casaco.
- Lú, eu sei o que você vai dizer. - ela simplesmente não conseguia olhar para ele - Foi um erro.
- A gente não fez nada de errado.
- Você não entende..
- Entendo sim.
Não, ele não entendia não. Era muito melhor com amor, e ele não o conhecia.
- Van, eu só acho que a gente é amigo demais pra fazer essas coisas. Ontem foi só..
- Pára de complicar as coisas, Lú. A amizade não vai mudar por causa do que a gente fez.
- Eu tenho muita consideração por você, de verdade. E eu não quero que seja assim com quem eu considero.
- Tá.
- Melhor a gente voltar a ser só amigo.
- Ok. Eu também acho.
- Então.. te vejo amanhã, no lugar de sempre?
- É.
Ele se levantou também, as mãos nos bolsos, os lábios frios. Seguiu em direção ao farol, que já brilhava na escuridão iminente das sete horas. Vanessa voltou a sentar no murinho, pensando em quanta coisa pretendia dizer a ele nessa conversa, e em quanta coisa realmente dissera. Nada.
- Lú.
Ela observou o corpo dele se virar lentamente em direção a ela, como se precisasse adiar o máximo possível aquela conversa. Não pôde deixar de lembrar da noite anterior, quando estavam tão próximos como duas pessoas podem estar. Quis puxá-lo e pegar nas suas mãos, e guiá-las pelo seu corpo; dizer que estava tudo bem e não lhe dar tempo para dizer nada. Quis dizer o verdadeiro motivo pelo qual ela concordava com ele em terminar tudo.
- O que foi?
Ele mudou o peso de um pé para o outro. Vanessa colocou a cabeça nas mãos.
- Van? - ele se aproximou, hesitante.
Ela engoliu em seco. Daria qualquer coisa para ouvir seu tom preocupado outra vez. Mas não fazia sentido segurá-lo ali se não ia mesmo dizer nada. Levantou a cabeça.
- Não é nada, não. Deixa pra lá.
- Tem certeza? - ele se aproximava ainda.
- Arrã. Esquece.
Lúcio parou. Deu meia-volta e em pouco tempo perdia-se na escuridão.
- Eu te amo - sussurrou Vanessa para ninguém.
A alguns quarteirões dali, ele sussurrava também.
- Van, eu não sei como te falar isso.
Ela já sabia. O desfecho da noite anterior não poderia causar um final diferente. Ela passara a noite pensando nisso. Levantou-se e puxou mais o casaco.
- Lú, eu sei o que você vai dizer. - ela simplesmente não conseguia olhar para ele - Foi um erro.
- A gente não fez nada de errado.
- Você não entende..
- Entendo sim.
Não, ele não entendia não. Era muito melhor com amor, e ele não o conhecia.
- Van, eu só acho que a gente é amigo demais pra fazer essas coisas. Ontem foi só..
- Pára de complicar as coisas, Lú. A amizade não vai mudar por causa do que a gente fez.
- Eu tenho muita consideração por você, de verdade. E eu não quero que seja assim com quem eu considero.
- Tá.
- Melhor a gente voltar a ser só amigo.
- Ok. Eu também acho.
- Então.. te vejo amanhã, no lugar de sempre?
- É.
Ele se levantou também, as mãos nos bolsos, os lábios frios. Seguiu em direção ao farol, que já brilhava na escuridão iminente das sete horas. Vanessa voltou a sentar no murinho, pensando em quanta coisa pretendia dizer a ele nessa conversa, e em quanta coisa realmente dissera. Nada.
- Lú.
Ela observou o corpo dele se virar lentamente em direção a ela, como se precisasse adiar o máximo possível aquela conversa. Não pôde deixar de lembrar da noite anterior, quando estavam tão próximos como duas pessoas podem estar. Quis puxá-lo e pegar nas suas mãos, e guiá-las pelo seu corpo; dizer que estava tudo bem e não lhe dar tempo para dizer nada. Quis dizer o verdadeiro motivo pelo qual ela concordava com ele em terminar tudo.
- O que foi?
Ele mudou o peso de um pé para o outro. Vanessa colocou a cabeça nas mãos.
- Van? - ele se aproximou, hesitante.
Ela engoliu em seco. Daria qualquer coisa para ouvir seu tom preocupado outra vez. Mas não fazia sentido segurá-lo ali se não ia mesmo dizer nada. Levantou a cabeça.
- Não é nada, não. Deixa pra lá.
- Tem certeza? - ele se aproximava ainda.
- Arrã. Esquece.
Lúcio parou. Deu meia-volta e em pouco tempo perdia-se na escuridão.
- Eu te amo - sussurrou Vanessa para ninguém.
A alguns quarteirões dali, ele sussurrava também.
quinta-feira, 26 de março de 2009
- paint me a wish on a velvet sky;
Eu corria entre as árvores aquela vez em que você me chamou. Eu corria e sentia o vento e acreditava que poderia sair voando dali se corresse um pouco mais rápido. Corria mas podia ver cada tronco passando como pilares de uma catedral. Pintasse tudo de branco. A catedral podia ser enorme; eu correria entre as pilastras grossas como troncos e acreditaria que Deus me tiraria dali se eu corresse um pouco mais rápido. Eu não ouvi você me chamar porque você já estava longe, e eu continuei correndo até chegar no fim do jardim e tudo se dissolver como uma peça de teatro muito mal ensaiada, tal qual o susto que tomei, todo mundo teria visto. Girei ao redor de mim três vezes até perceber que você já estava longe e não atrás de mim. Eu ri e minha risada ecoou pelo ar como se dominasse o mundo. Deixei o mundo para trás e voltei a correr, as árvores passando agora como barras de uma prisão que me deixava cada vez mais livre. Presa dentro de mim mesma, pensei. Assim eu iria longe. E talvez tivesse ido, talvez tivesse passado por colunas gregas desbotadas ou ruínas de alguma cidade antiga se você tivesse aparecido atrás de mim novamente. Mas cheguei a voltar às árvores para girar em torno de mim mesma e buscar você com o olhar, aonde você teria ido? Quem sabe em algum subterrâneo de uma pirâmide? Eu ri, mas minha risada se submeteu ao vento agora uivante que dançava entre as árvores e me levava junto. Corri até a noite cair, as árvores se tornarem vultos à espreita e o medo me atingir, frio como gelo. Corri até que as árvores eram casas, muros e prédios, e corri acreditando que você surgiria diante de mim se corresse um pouquinho mais rápido.
quinta-feira, 19 de março de 2009
- três amores;
Seja o amor singelo de uma donzela crível,
seja o quase ardor impuro de uma meretriz
Deixe-me banhar sua pele com um rio de ouro
Brindemos à minha dor injusta e aos meus sonhos vis
Eu sou ferro, punho e fogo em seu caminho simples
Sou a verdade crua sobre cada passo imaculado
Pois seu sofrer é menos que minha primeira lágrima
Mas seu clamor é mais que meu menor enfado
Dirá que o amor te fez de cicatriz?
Deveras haverá feridas incuráveis
Eis que nenhuma delas lhe tomou de ardil
Jogue aos céus seus infalíveis brados
Julgando a dor que nunca sentirá
Crente no amor que tampouco sentiu.
(tá meio raivoso, né?)
quinta-feira, 12 de março de 2009
- São Paulo no caminho certo;
A noite parecia mais escura do que o normal, e a rua por onde eu caminhava faria minha mãe enlouquecer e me esconder no lugar seguro mais próximo, se estivesse presente. Por mais que várias pessoas suspeitas andassem nas sombras, e de terem mexido comigo mais de uma vez, eu me sentia tranquila; naquele final de semana, aquela era a minha casa. Olhei para o lado; minha prima mantinha os olhos à frente, indiferente como eu. Era isso que me fazia fugir para ali quando minha casa original se tornava insuportável; éramos só nós duas, o tempo todo, e eu me sentia tão à vontade naquelas vielas que poderia estar sozinha que o medo não me atingiria. O que eu mais temia ficava longe dali. Então, o que viesse só poderia ser lucro.
Chegamos ao fim da rua; a avenida em que desembocamos refulgia pela luz dos tantos carros e motos atravancados no trânsito. Vários mendigos se enfileiravam numa praça próxima. Continuamos a andar, sem nem perceber aonde estávamos indo, automaticamente; a pizzaria barata ergueu-se numa esquina, e entramos ali, os dez reais em moedas apertados na minha mão.
Minha prima sentou-se ao meu lado depois que fizemos o pedido, para esperar. Ela me conhecia suficientemente bem para perceber que não adiantava falar comigo agora; eu estava observando. Absorvia cada detalhe, pesando as diferenças entre aquele lugar e a cidade em que cresci.
Um par de irmãos cantava uma música sertaneja a um canto, acompanhados por alguém que tocava violão, as vozes quase abafadas pelo barulho da pizzaria. À sua frente, um casal de namorados de meia idade tomava uma cerveja, um ao lado do outro, abraçados, curtindo a música, sem conversar. À direita, meia dúzia de amigos dividiam duas pizzas, aparentemente esfomeados demais para dizer alguma coisa; e atrás deles, uma família jantava tranquilamente; o pai, a mãe, e uma menininha de mais ou menos um ano, que apontou quando um travesti entrou para falar com um homem bem vestido, sentado logo ao lado. A menina cresceria acostumada com aquilo, pensei. Cresceria acostumada a entrar em uma pizzaria e ver todo o tipo de gente, num lugar onde tudo se misturava, todas as pessoas do bairro dividiam os mesmos estabelecimentos, independente de sua posição econômica. As garçonetes avançavam entre as mesas, experientes, sem esbarrar em nada, uma expressão de intenso cansaço no rosto. A menininha aprenderia a não sentir pena das moças, que trabalhavam tanto; talvez até se tornasse uma delas. Ela apontou de novo, desta vez para a entrada; um bêbado, magro, os olhos vermelhos e as roupas sujas, entrara; ninguém pareceu reparar. Caminhou com passos trôpegos até cada mesa, pedindo comida com a voz engrolada, às vezes nem conseguindo falar. Quando se virou para mim, vi que vestia uma camiseta que deveria ser branca se não estivesse tão suja, com os dizeres "São Paulo no caminho certo."
Minha prima, preocupada com que eu pudesse me assustar, espantou o bêbado, indiferente. Quando os nossos olhares se encontraram, desatamos a rir; a cena era irônica demais. Se o caminho certo para São Paulo fosse tão trôpego, a cidade logo tombaria para um lado e dormiria profundamente, como ele estava prestes a fazer. Sabia o que minha mãe diria se me visse ali. Mas o que ela não poderia sentir, nem imaginar, era o quanto eu gostava de me misturar assim, o quanto era bom ver um pouco, quanto todos insistiam em tapar-me os olhos.
(perdão pela figura meio nada a ver, mas eu sou meio apaixonada pelo willy wonka.)
Chegamos ao fim da rua; a avenida em que desembocamos refulgia pela luz dos tantos carros e motos atravancados no trânsito. Vários mendigos se enfileiravam numa praça próxima. Continuamos a andar, sem nem perceber aonde estávamos indo, automaticamente; a pizzaria barata ergueu-se numa esquina, e entramos ali, os dez reais em moedas apertados na minha mão.
Minha prima sentou-se ao meu lado depois que fizemos o pedido, para esperar. Ela me conhecia suficientemente bem para perceber que não adiantava falar comigo agora; eu estava observando. Absorvia cada detalhe, pesando as diferenças entre aquele lugar e a cidade em que cresci.
Um par de irmãos cantava uma música sertaneja a um canto, acompanhados por alguém que tocava violão, as vozes quase abafadas pelo barulho da pizzaria. À sua frente, um casal de namorados de meia idade tomava uma cerveja, um ao lado do outro, abraçados, curtindo a música, sem conversar. À direita, meia dúzia de amigos dividiam duas pizzas, aparentemente esfomeados demais para dizer alguma coisa; e atrás deles, uma família jantava tranquilamente; o pai, a mãe, e uma menininha de mais ou menos um ano, que apontou quando um travesti entrou para falar com um homem bem vestido, sentado logo ao lado. A menina cresceria acostumada com aquilo, pensei. Cresceria acostumada a entrar em uma pizzaria e ver todo o tipo de gente, num lugar onde tudo se misturava, todas as pessoas do bairro dividiam os mesmos estabelecimentos, independente de sua posição econômica. As garçonetes avançavam entre as mesas, experientes, sem esbarrar em nada, uma expressão de intenso cansaço no rosto. A menininha aprenderia a não sentir pena das moças, que trabalhavam tanto; talvez até se tornasse uma delas. Ela apontou de novo, desta vez para a entrada; um bêbado, magro, os olhos vermelhos e as roupas sujas, entrara; ninguém pareceu reparar. Caminhou com passos trôpegos até cada mesa, pedindo comida com a voz engrolada, às vezes nem conseguindo falar. Quando se virou para mim, vi que vestia uma camiseta que deveria ser branca se não estivesse tão suja, com os dizeres "São Paulo no caminho certo."
Minha prima, preocupada com que eu pudesse me assustar, espantou o bêbado, indiferente. Quando os nossos olhares se encontraram, desatamos a rir; a cena era irônica demais. Se o caminho certo para São Paulo fosse tão trôpego, a cidade logo tombaria para um lado e dormiria profundamente, como ele estava prestes a fazer. Sabia o que minha mãe diria se me visse ali. Mas o que ela não poderia sentir, nem imaginar, era o quanto eu gostava de me misturar assim, o quanto era bom ver um pouco, quanto todos insistiam em tapar-me os olhos.
(perdão pela figura meio nada a ver, mas eu sou meio apaixonada pelo willy wonka.)
quarta-feira, 4 de março de 2009
- the life before her eyes;
E se eu crescer, conseguir tudo que quero, e mesmo assim não ser feliz?
Essa coisa toda de vestibular começou a me atormentar, e eu não conseguia colocar em palavras as minhas preocupações. É óbvio que tem aquele medo todo de não passar, perder um ano fazendo cursinho e etc. Mas, afora isso tudo, havia alguma outra coisa me preocupando e eu não sabia o quê.
Aí eu assisti esse filme (o título). E pensei tanto sobre ele que entendi.
No filme, a protagonista vê como seria a vida dela se conseguisse tudo que queria, até os desejos mais mínimos, como uma casa com uma varanda grande e uma filha chamada Emma. Mas ela não é feliz; passa o tempo todo se atormentando com coisas que aconteceram há muito tempo. E, quando chega a hora de escolher entre a sua vida e a da sua melhor amiga, ela se rende.
Pode parecer meio (muito) macabro, eu sei. Mas, encarando a história superficialmente, eu me imagino numa casa bem aberta, com um filho, morando perto dos meus pais, ainda tendo amigos antigos. Me imagino realizando todos os meus sonhos, até os mais idiotas. Será que tudo isso seria suficiente para eu esquecer algumas coisas que me atormentam desde sempre? Já faz anos e eu me lembro como se fosse hoje. Às vezes parece que todo o tempo do mundo não seria suficiente.
Ok, esquecer é demais. Mas só não lembrar o tempo todo já ajudaria muito. Não pensar nisso, não sentir tudo de novo. Eu tenho medo de nunca deixar de me atormentar. Eu não quero viver escorregando, me agarrando em qualquer coisa para me manter de pé, para sempre. Não é isso que eu quero ensinar a ninguém. Por isso que eu preciso desesperadamente ir embora dessa cidade, começar tudo de novo. O máximo que eu puder fazer, eu vou fazer.
De qualquer forma, eu me identifiquei enormemente com a personagem do filme por que eu acho que faria a mesma escolha. O medo leva à imaginação absurda. Mas se acontecesse, eu sei o que eu escolheria. Qualquer vida é melhor do que uma vida cheia de cicatrizes, principalmente quando parece que elas não nunca te deixarão em paz.
(the life before her eyes, em português: "sem medo de morrer". recomendo.)
Essa coisa toda de vestibular começou a me atormentar, e eu não conseguia colocar em palavras as minhas preocupações. É óbvio que tem aquele medo todo de não passar, perder um ano fazendo cursinho e etc. Mas, afora isso tudo, havia alguma outra coisa me preocupando e eu não sabia o quê.
Aí eu assisti esse filme (o título). E pensei tanto sobre ele que entendi.
No filme, a protagonista vê como seria a vida dela se conseguisse tudo que queria, até os desejos mais mínimos, como uma casa com uma varanda grande e uma filha chamada Emma. Mas ela não é feliz; passa o tempo todo se atormentando com coisas que aconteceram há muito tempo. E, quando chega a hora de escolher entre a sua vida e a da sua melhor amiga, ela se rende.
Pode parecer meio (muito) macabro, eu sei. Mas, encarando a história superficialmente, eu me imagino numa casa bem aberta, com um filho, morando perto dos meus pais, ainda tendo amigos antigos. Me imagino realizando todos os meus sonhos, até os mais idiotas. Será que tudo isso seria suficiente para eu esquecer algumas coisas que me atormentam desde sempre? Já faz anos e eu me lembro como se fosse hoje. Às vezes parece que todo o tempo do mundo não seria suficiente.
Ok, esquecer é demais. Mas só não lembrar o tempo todo já ajudaria muito. Não pensar nisso, não sentir tudo de novo. Eu tenho medo de nunca deixar de me atormentar. Eu não quero viver escorregando, me agarrando em qualquer coisa para me manter de pé, para sempre. Não é isso que eu quero ensinar a ninguém. Por isso que eu preciso desesperadamente ir embora dessa cidade, começar tudo de novo. O máximo que eu puder fazer, eu vou fazer.
De qualquer forma, eu me identifiquei enormemente com a personagem do filme por que eu acho que faria a mesma escolha. O medo leva à imaginação absurda. Mas se acontecesse, eu sei o que eu escolheria. Qualquer vida é melhor do que uma vida cheia de cicatrizes, principalmente quando parece que elas não nunca te deixarão em paz.
(the life before her eyes, em português: "sem medo de morrer". recomendo.)
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