A cena era a seguinte: cinco amigas, um ônibus, uma puta paisagem, e uma viagem pra contar.
Eu era uma delas. Por um momento, me ergui acima das conversas, entrando num estupor agradável que me permitia reviver os momentos mágicos do final de semana. Encostei a cabeça no vidro da janela e pensei em cada riso, cada besteira, cada pequeno instante da viagem; deixei que minha mente divagasse.
O céu era daquele azul que só se vê em filmes, até uma faixa de nuvem; abaixo dela, era perceptível uma mancha de poluição ao longe; pra onde eu não queria voltar. A fumaça misturava-se com as nuvens de algodão, formando milhares de espirais, e eu poderia passar o resto da minha vida ali, só olhando, ouvindo ao fundo o som daquelas que me trazem mais felicidade do que qualquer outra coisa. Um pequeno sorriso involuntário brotou dos meus lábios.
Perto do horizonte, um avião se distinguiu da fumaça. Da janela, ele era menor do que uma mosca. Me surpreendi ao perceber que ali deviam estar mais pessoas do que no ônibus em que eu estava.. e me senti inundada pela grandeza do mundo. Parei pra pensar, e me toquei que há tanta coisa para decidir, tantas opiniões pra formar e histórias para ouvir; e me encolhi, por perceber a minúscula fração que eu sou do universo e a mudança menor ainda que aconteceria se eu deixasse de existir.
Assustada, fechei a cortina. E me virei para olhar o que eu tinha pela frente.
As quatro melhores amigas do mundo sorriram para mim. Do outro lado do ônibus, o sol começava a descer no horizonte. E senti que meu amor preencheria o mundo.
domingo, 30 de novembro de 2008
sábado, 22 de novembro de 2008
- uma pequena analogia;
O jovem moço deitou sob a relva e abraçou os joelhos. Deitado, ali mesmo, corria. Temia que a dor chegasse primeiro.
Fechou os olhos. Ignorou o frio da chuva e do vento, e começou a lembrar.
Voltou ao primeiro dia, àquela mão branca e fina que parecia leve o suficiente pra que o vento a levasse. Lembrou-se do quanto sonhou antes de poder finalmente roçar sua pele naquelas mãos de cristal. Quase pôde sentir o cheiro doce de seu cabelo, sempre preso ao coque de bailarina gracioso; percorreu os olhos sobre seu corpo de menina e de moça, os traços ínfimos que cansou de memorizar, a cada dia, a cada minuto que passava entorpecido pela sua existência quase tangível. A água em sua boca se confundiu com o gosto daqueles lábios finos e delicados; involuntariamente, estendeu as mãos, procurando, esperando.. manteve-se alheio ao barulho das gotas de água esparramando-se à sua volta, e ali, debaixo da chuva, sob o frio do vento, quase pôde ouvir a sua voz.
Não distraiu-se nem quando um trovão rugiu ao longe.
Correram por aí, no tempo que se seguia, histórias incertas sobre aquele moço, jovem moço, que dormira forçando seu coração a bater, e que ele assim estaria, por mais que desabasse o mundo.. Muitos foram vê-lo, contra várias doenças foi medicado, por muito tempo foi presenteado com visitas dos mais variados tipos de religião. Mas o tempo apagou as lembranças, hoje já esquecido, ele dorme, por mais que desabe o mundo.
Ele dorme e sonha, sorri e chora, e sussurra para si mesmo as notas da música que outrora ela dançava, com seus pés de moça e sorriso de criança. Há quem diga que ele espere, outros já desistiram de confabular. Mas há quem saiba que ele só teme a dor que sentirá ao acordar, e o futuro incerto que o espera ao desistir de evitá-la. Há quem saiba, que por mais que ele corra, um dia ele perderá a luta; quando seus pés não puderem mais aguentar. Cai a chuva, passa o vento.. E ele continua dormindo.
(Hoje eu percebi, o porque de tanta falta de inspiração; e eu percebi também que estava na minha cara o tempo todo.
Cada sentimento descrito por mim sempre procura a definição perfeita; como explicar completamente meu estado de espírito, mesmo que de forma indireta. Eu nunca consigo isso, mas eu sempre tenho uma pequena idéia daonde eu quero chegar.. do que eu preciso tirar de mim, pra que pare de me atormentar; ou da felicidade que eu desejo mostrar pro mundo. E, ultimamente, nenhuma palavra parecia ser completa e intensa o suficiente.
Por que eu não sabia, não entendia, o que me atormentava.. do que eu estava precisando, qual o alívio que eu buscava com tanta ansiedade. Eu já havia desistido. Até que eu baixei a canção de ninar que o Edward fez pra Bella (que vai tocar no filme), ouvi, e chorei. É uma composição só de piano, linda, mas que normalmente não faria as pessoas chorarem. E eu chorei..
E eu percebi que não eram as palavras que estavam tão incompletas.. era eu mesma.
Eu sou o maior exemplo que eu conheço de fraqueza, de dependência, e de medo. Eu já senti muita dor. E o medo de sentir isso de novo afasta de mim tudo que eu amo, todas as pessoas que me dão esperança; isso suga as minhas forças, me desidrata, por que eu dependo irremediavelmente dessas pessoas; da certeza e da incerteza que elas me dão ao mesmo tempo. Eu percebi, hoje, que eu estou procurando às cegas por algum pedaço de mim que eu deixei por aí. E que essa busca sem direção acaba com toda a alegria que eu consigo reunir, como água resvalando por entre os meus dedos..
Ah, da forma mais idiota possível, eu percebi que eu quero um amor com todas as minhas forças.. eu quero um abraço forte, que me proteja e me aqueça; eu quero um olhar que traduza devoção, compromisso; eu quero que isso dure até não poder mais, que seja real, não apenas nos meus sonhos. Eu não quero mais acabar com tudo e viver com migalhas por aí. Eu preciso de algo muito maior do que isso.
E agora, só me resta não deixar mais que esse aperto no estômago constante me atrapalhe quando eu for escrever.. por que eu sei, eu me conheço; amar não é mais tão fácil pra mim, e não é tão cedo que isso vai acontecer.
Essa é só uma explicação do por que de tanta ausência daqui. E tomara que eu volte a escrever, logo.)
Fechou os olhos. Ignorou o frio da chuva e do vento, e começou a lembrar.
Voltou ao primeiro dia, àquela mão branca e fina que parecia leve o suficiente pra que o vento a levasse. Lembrou-se do quanto sonhou antes de poder finalmente roçar sua pele naquelas mãos de cristal. Quase pôde sentir o cheiro doce de seu cabelo, sempre preso ao coque de bailarina gracioso; percorreu os olhos sobre seu corpo de menina e de moça, os traços ínfimos que cansou de memorizar, a cada dia, a cada minuto que passava entorpecido pela sua existência quase tangível. A água em sua boca se confundiu com o gosto daqueles lábios finos e delicados; involuntariamente, estendeu as mãos, procurando, esperando.. manteve-se alheio ao barulho das gotas de água esparramando-se à sua volta, e ali, debaixo da chuva, sob o frio do vento, quase pôde ouvir a sua voz.
Não distraiu-se nem quando um trovão rugiu ao longe.
Correram por aí, no tempo que se seguia, histórias incertas sobre aquele moço, jovem moço, que dormira forçando seu coração a bater, e que ele assim estaria, por mais que desabasse o mundo.. Muitos foram vê-lo, contra várias doenças foi medicado, por muito tempo foi presenteado com visitas dos mais variados tipos de religião. Mas o tempo apagou as lembranças, hoje já esquecido, ele dorme, por mais que desabe o mundo.
Ele dorme e sonha, sorri e chora, e sussurra para si mesmo as notas da música que outrora ela dançava, com seus pés de moça e sorriso de criança. Há quem diga que ele espere, outros já desistiram de confabular. Mas há quem saiba que ele só teme a dor que sentirá ao acordar, e o futuro incerto que o espera ao desistir de evitá-la. Há quem saiba, que por mais que ele corra, um dia ele perderá a luta; quando seus pés não puderem mais aguentar. Cai a chuva, passa o vento.. E ele continua dormindo.
(Hoje eu percebi, o porque de tanta falta de inspiração; e eu percebi também que estava na minha cara o tempo todo.
Cada sentimento descrito por mim sempre procura a definição perfeita; como explicar completamente meu estado de espírito, mesmo que de forma indireta. Eu nunca consigo isso, mas eu sempre tenho uma pequena idéia daonde eu quero chegar.. do que eu preciso tirar de mim, pra que pare de me atormentar; ou da felicidade que eu desejo mostrar pro mundo. E, ultimamente, nenhuma palavra parecia ser completa e intensa o suficiente.
Por que eu não sabia, não entendia, o que me atormentava.. do que eu estava precisando, qual o alívio que eu buscava com tanta ansiedade. Eu já havia desistido. Até que eu baixei a canção de ninar que o Edward fez pra Bella (que vai tocar no filme), ouvi, e chorei. É uma composição só de piano, linda, mas que normalmente não faria as pessoas chorarem. E eu chorei..
E eu percebi que não eram as palavras que estavam tão incompletas.. era eu mesma.
Eu sou o maior exemplo que eu conheço de fraqueza, de dependência, e de medo. Eu já senti muita dor. E o medo de sentir isso de novo afasta de mim tudo que eu amo, todas as pessoas que me dão esperança; isso suga as minhas forças, me desidrata, por que eu dependo irremediavelmente dessas pessoas; da certeza e da incerteza que elas me dão ao mesmo tempo. Eu percebi, hoje, que eu estou procurando às cegas por algum pedaço de mim que eu deixei por aí. E que essa busca sem direção acaba com toda a alegria que eu consigo reunir, como água resvalando por entre os meus dedos..
Ah, da forma mais idiota possível, eu percebi que eu quero um amor com todas as minhas forças.. eu quero um abraço forte, que me proteja e me aqueça; eu quero um olhar que traduza devoção, compromisso; eu quero que isso dure até não poder mais, que seja real, não apenas nos meus sonhos. Eu não quero mais acabar com tudo e viver com migalhas por aí. Eu preciso de algo muito maior do que isso.
E agora, só me resta não deixar mais que esse aperto no estômago constante me atrapalhe quando eu for escrever.. por que eu sei, eu me conheço; amar não é mais tão fácil pra mim, e não é tão cedo que isso vai acontecer.
Essa é só uma explicação do por que de tanta ausência daqui. E tomara que eu volte a escrever, logo.)
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
- péssimo novembro;
Eu queria voltar a escrever.
Não sei que porra me fez parar de escrever. Tá, eu fui escrever um depoimento de aniversário pra uma amiga minha e.. não saiu. UM DEPOIMENTO. Agora me explica como é que tanta inspiração some do nada, e como todos os seus textos de repente viram um lixo..
Eu tenho dezesseis arquivos enormes do word cheios de textos (a maioria eu não mostro pra ninguém), sem contar os blocos de notas e os perdidos por aí. E então, do nada, toda a capacidade que eu tinha de me esvair em palavras some, e eu fico desesperada de tanta sensação martelando na minha cabeça pedindo pra sair. Que merda. Isso devia ter uma fórmula, sabe?
Esse incômodo não sai da minha cabeça, o dia todo. Eu fui mal na prova de redação (isso era inédito até essa última prova..), acabei com todas as minhas idéias, e não consigo fazer uma porra de post decente sobre não conseguir escrever. Eu achei que era por que eu não lia faz tempo, então eu engoli toda a série do Crepúsculo em menos de uma semana e esperei a inspiração vir. Eu andei na rua sozinha uma tarde quase inteira e fiz capuccino numa caneca vermelha linda que eu tenho e que me dá idéias. E nada funciona!
Eu vou enlouquecer em poucos dias; tô em processo, contagem regressiva, há!
Alguém aí que entenda de mentes estranhas explodindo de tanta informação, que tal me dar uma ajudinha?
Não sei que porra me fez parar de escrever. Tá, eu fui escrever um depoimento de aniversário pra uma amiga minha e.. não saiu. UM DEPOIMENTO. Agora me explica como é que tanta inspiração some do nada, e como todos os seus textos de repente viram um lixo..
Eu tenho dezesseis arquivos enormes do word cheios de textos (a maioria eu não mostro pra ninguém), sem contar os blocos de notas e os perdidos por aí. E então, do nada, toda a capacidade que eu tinha de me esvair em palavras some, e eu fico desesperada de tanta sensação martelando na minha cabeça pedindo pra sair. Que merda. Isso devia ter uma fórmula, sabe?
Esse incômodo não sai da minha cabeça, o dia todo. Eu fui mal na prova de redação (isso era inédito até essa última prova..), acabei com todas as minhas idéias, e não consigo fazer uma porra de post decente sobre não conseguir escrever. Eu achei que era por que eu não lia faz tempo, então eu engoli toda a série do Crepúsculo em menos de uma semana e esperei a inspiração vir. Eu andei na rua sozinha uma tarde quase inteira e fiz capuccino numa caneca vermelha linda que eu tenho e que me dá idéias. E nada funciona!
Eu vou enlouquecer em poucos dias; tô em processo, contagem regressiva, há!
Alguém aí que entenda de mentes estranhas explodindo de tanta informação, que tal me dar uma ajudinha?
domingo, 9 de novembro de 2008
- aos seus pés;
Chorei ao me deparar com o amor
E o ar se rendeu à minha falta de fôlego
Por carecer te deixar, foi a dor
E a lembrança de seu desejo trôpego
E o beijo cativou meu devaneio
Desandei, e aos seus pés virei criança
A inocência se mostrou como um espelho
E o pudor que a perfídia sempre alcança
Mas não por mim o seu olho brilhou
E não a mim foi destinado o seu apego
Enquanto o anseio ardente atenuou
A vã espera me revolvia ao gelo
Em um sonho feito pelos meus desejos
Eu te levarei ao inferno
E o fogo será a nossa única testemunha
Não haverá perdão aos nossos erros
Seguiremos um rumo incerto
Que em nós livremente se expunha
(eu não consigo mais escrever, então eu coloco um texto mais velhinho aqui. eu gosto desse poema por causa desse negócio de vou te levar ao inferno, muahaha. mas, por favor, alguém me ensina a trazer a inspiração de volta?)
E o ar se rendeu à minha falta de fôlego
Por carecer te deixar, foi a dor
E a lembrança de seu desejo trôpego
E o beijo cativou meu devaneio
Desandei, e aos seus pés virei criança
A inocência se mostrou como um espelho
E o pudor que a perfídia sempre alcança
Mas não por mim o seu olho brilhou
E não a mim foi destinado o seu apego
Enquanto o anseio ardente atenuou
A vã espera me revolvia ao gelo
Em um sonho feito pelos meus desejos
Eu te levarei ao inferno
E o fogo será a nossa única testemunha
Não haverá perdão aos nossos erros
Seguiremos um rumo incerto
Que em nós livremente se expunha
(eu não consigo mais escrever, então eu coloco um texto mais velhinho aqui. eu gosto desse poema por causa desse negócio de vou te levar ao inferno, muahaha. mas, por favor, alguém me ensina a trazer a inspiração de volta?)
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
- capítulo um;
Sarah vislumbrava o mar aberto à sua frente. Ele parecia pronto para abraçá-la, e ela suprimia a vontade de jogar-se a ele, ínfima, em meio às ondas imponentes; apenas uma peça simplória daquela imensidão. A praia calma reduzia-se a uma linha rosada e distante, à medida que a canoa de madeira se afastava rumo ao norte. O remo pesado afrontava as águas, impulsionando a canoa para frente. Sarah permanecia de pé, equilibrada, os olhos semicerrados pelo sol, mirando o horizonte, uma linha contínua azul-marinho, interrompida apenas pelo vulto de uma ilha.
Seu pequeno corpo vibrava de ansiedade. Apesar de seus dezesseis anos, sua aparência tapeava as pessoas; o rosto infantil e o corpo não desenvolvido contradiziam sua mente amadurecida. A pele morena, marcada pelo Sol, parecia ter brilho próprio; os cabelos desgrenhados presos num coque baixo enalteciam seu rosto quadrado e seus lábios robustos.
A ilha parecia mais próxima agora. Sarah sabia que a aparente proximidade era enganadora, e que demoraria muito ainda para chegar em seu destino; permanecia despreocupada, planejara e estudara por muitos anos essa pequena travessia. Não ia se desesperar agora.
Contrastando com a suavidade das águas contornando o remo, um obstáculo chamou a atenção de Sarah. O instrumento colidira com algo resistente e preso à areia; mesmo tão distante da maré, a praia era famosa por isso, sua profundidade ia aumentando vagarosamente, tanto que Sarah quase que poderia alcançar o chão se pulasse. Fincou o remo na areia para que a canoa parasse. Olhou para os dois lados, examinou o fundo, atenta. Então, despiu-se.
Sua roupa de fibra leve e rica seria inútil e incômoda nas águas. Por baixo, roupas velhas e escolhidas para a necessidade de entrar na água. De súbito, mergulhou habilmente no mar, e a água lambeu carinhosamente seus cabelos; aos poucos o corpo ajustava-se à temperatura fria; ela não sentia dificuldade em abrir completamente os olhos. Dirigiu-se sem pressa ao obstáculo, segurando a respiração sem dificuldade. Apenas um pedaço era visível; a maior parte da caixa de madeira escura estava soterrada. Sarah tirou uma pequena lâmina que trazia amarrada à cintura, pôs-se a cavar rapidamente; com um grande esforço pôde retirar a caixa inteira. Voltou à superfície, a caixa segura em suas mãos, surpreendentemente leve. Subiu na canoa e procurou por um fecho na face frontal da caixa, decorada habilmente com flores e arranjos. Não havia nenhum.
Esquecera de seu objetivo, ansiosa para examinar a caixa; esquecera que não dispunha de muito tempo. Logo, vozes masculinas fizeram-se ouvir; e, ao olhar à sua volta, percebeu o que a curiosidade lhe custara: mais uma tentativa perdida.Cinco barcos com três homens cada um a rodeavam, e um deles já havia amarrado uma corda ligando seu barco à canoa de Sarah. Não fizeram perguntas, Sarah já sabia o que faziam ali. Suspirou, frustrada, e resistiu ao impulso de lançar aquela caixa ao mar. A canoa foi puxada pelo barco, não para o norte, não para o seu destino; mas de volta à sua simplória existência na praia.
*
Jad sucumbiu ao choro. Seu rosto já marcado pelo tempo contraiu-se; suas mãos enrugadas tremeram, seus olhos miúdos molharam a face. Ela olhou para o marido, desesperada.
- Mandou todos os seus homens?
- Mandei – a voz dele revelava impaciência.
- Mandou procurarem em direção à ilha?
Apenas um murmúrio de afirmação como resposta; marcado pela frieza desumana que se via em seus olhos. Nenhuma palavra de carinho ou consolo, apenas sua presença insípida; irredutível.
- Acha que vão encontrá-la, Marcel? – disse Jad entre soluços, ávida por uma palavra de esperança.
Um suspiro cansado. Nenhuma emoção.
- O mar é grande.
- E se ela chegar na ilha? E se ela encontrar... – Jad parecia aterrorizada em pensar na hipótese.
- Chega, Jad – não era um pedido, tampouco algo para tranqüilizá-la; ele apenas desejava que ela parasse de perturbá-lo.
- ... o que será de nós, meu Deus? – ela pareceu não ouvi-lo.
Marcel chutou o pequeno banco de madeira à sua frente. Seus olhos incharam de fúria incontida.
- Cale a boca! – ela olhou para ele como se acabasse de perceber que ele estava ali. Suas lágrimas rolaram sozinhas. Levantou-se.
- Você se tornou mais frio e duro que uma pedra de gelo. Um monstro. Atroz como aqueles homens que tanto desprezava na guerra! – ela saiu sem olhar para trás, o corpo curvado pela velhice e sacudido pelo que restou de seus soluços. Marcel arfava. Suas mãos grossas permaneciam contraídas, mas seus olhos já não demonstravam nenhuma emoção.
Na sala contígua, Jad sentava na mesinha de centro, e rezava por perdão a um Deus que não acreditava mais; apenas pela carência de expor suas lamúrias. E pedia, sem fé, mais a si mesma do que a alguma divindade; que Sarah não chegasse àquela ilha.
*
Sarah desvencilhou-se do aperto do soldado no braço. Ele mantinha-se próximo demais às suas costas, e ela sentia seu cheiro podre de fumo e sua risada maliciosa. Ele a conduzia até a porta do lugar onde menos desejava estar; sua casa.
A mansão branca brilhava ao Sol que já descia no céu. O estábulo enorme do outro lado do lago não se comparava à monumental construção à sua frente, antiga mas renovada; em ótimo estado. Ao avistar a velha senhora correndo em direção à Sarah, o soldado se afastou. Jad abraçou a filha com fervor, mas ela ignorou o abraço; continuou impassível agarrada à caixa já seca pelo Sol.
Jad conduziu a filha ao seu quarto, e a deixou sozinha. Sarah deitou-se em sua cama, frustrada; enfiou a caixa na gaveta de sua penteadeira e suspirou. Podia até contar os segundos que faltavam. A porta se abriu com estrondo. Seu pai, cheirando a uísque e tomado pela fúria, avançou para ela com uma cinta na mão.
*
Naquela noite, Sarah não dormiu. Suas pernas ainda ardiam com a surra que levara no final da tarde. A Lua já ia alta no céu, mas seus olhos bem abertos examinavam a caixa à sua frente. Fechada. Nenhum cadeado. Apenas uma tampa pregada à caixa tão fortemente que nenhuma fresta lhe era perceptível. As cabeças dos pregos afundados na madeira estavam enferrujadas, e Sarah perdera horas limpando todo o limo que encobria a caixa.
Vasculhou suas coisas, mas não encontrou nada que pudesse abrir o pequeno baú; desceu pé ante pé as escadas cobertas de veludo vermelho, e saiu pela porta dos fundos da cozinha; sem fazer o menor ruído, a caixa aninhada em seus braços frios.
Respirou o ar fresco da noite. Sentiu a grama roçar seus pés descalços, ouviu o murmúrio incessante dos grilos; pressentiu o cheiro de jasmins. Aproximou-se do lago, que lhe parecia um grande espelho imóvel, reverenciando a Lua; o contornou, em direção ao estábulo. Distinguiu, no escuro, o vulto da oficina de seu pai, contígua à construção de madeira clara.O estabelecimento cheirava a mofo. Sarah prendeu a respiração enquanto acendia o pequeno lampião pendurado na porta encostada; entrou silenciosa na oficina, em busca de alguma ferramenta útil. Não teria coragem de serrar a caixa, precisava de um pé-de-cabra ou algo parecido... abriu inúmeras caixas de ferramentas situadas nas prateleiras atrás do balcão, mas não encontrou nada que servisse. Desanimada, abriu um armário encostado entre a porta e o canto da parede; seu rosto brilhou de alegria ao encontrar um grande pedaço de ferro moldado exatamente como precisava; apoiou a caixa cuidadosamente no balcão e pegou o ferro com as duas mãos. Precisaria de muita força. Pegou um serrote no meio da sessão de marcenaria, abriu uma pequena fresta onde pudesse encaixar o ferro. Colocou a caixa no chão, posicionou-se, e encaixou a ponta do pé-de-cabra na fresta aberta pelo serrote. Pressionou para baixo, apoiando todo o seu peso. A caixa rangeu.
Pressionou de novo. Sentiu a tampa levantar um pouco.
Respirou fundo, tirou os cabelos suados do rosto. Pressionou mais uma vez.
A tampa da caixa voou, foi parar atrás do balcão, fazendo estardalhaço. Sarah agarrou a caixa e correu atrás da tampa, ágil; seus passos leves estavam acostumados com a noite. Em alguns minutos, estava de volta ao quarto, a caixa aberta sobre as mãos pequenas.
Sentou-se em sua cama, feliz por finalmente poder ver seu conteúdo. Ao vislumbrar uma pilha de papéis amarelados completamente preenchidos por palavras, a lápis, desapontou-se. Folheou-os, e leu a primeira folha.
“Ela será fruto de uma história de amor.
Será morena, bonita, com lábios carnudos e cabelos presos.
Participará de vários tipos de misticismo, mas nunca acreditará em nenhum deles.
Saberá se comportar diante dos outros, mas terá medo da intimidade.
Será egoísta, e seu orgulho será um mártir.
Mentirá, e suas mentiras a aprisionarão.
Seus arrependimentos serão seus castigos.
Sofrerá, mas também será feliz.
Presenciará desgraças, mas nunca se tornará uma pessoa amarga.
Terá uma vida marcada por segredos.
Temerá a morte, e todos os desconhecidos.
Terá piedade, ansiedade e nunca conhecerá a paz.
Demorará a conhecer o amor, e quando o conhecer, não saberá usá-lo.
Será criada sob o gelo, mas nunca perderá a esperança.
Amará a magia, as histórias infantis e o sol.
Aprenderá a muito custo que nem todas as histórias têm um fim concreto, a maioria se perde no começo de outra.
O passado será o seu maior inimigo.
Escolherá a ignorância à ciência das verdades terríveis.
Verá tempestades em garoas, chorará lágrimas inúteis.
Sorrirá de verdade pela primeira vez aos dezessete anos.
Desafiará o destino.
Morrerá tarde demais.”
Uma assinatura marcava o final daquela profecia, legível e simples.
”Marise”.
Seu pequeno corpo vibrava de ansiedade. Apesar de seus dezesseis anos, sua aparência tapeava as pessoas; o rosto infantil e o corpo não desenvolvido contradiziam sua mente amadurecida. A pele morena, marcada pelo Sol, parecia ter brilho próprio; os cabelos desgrenhados presos num coque baixo enalteciam seu rosto quadrado e seus lábios robustos.
A ilha parecia mais próxima agora. Sarah sabia que a aparente proximidade era enganadora, e que demoraria muito ainda para chegar em seu destino; permanecia despreocupada, planejara e estudara por muitos anos essa pequena travessia. Não ia se desesperar agora.
Contrastando com a suavidade das águas contornando o remo, um obstáculo chamou a atenção de Sarah. O instrumento colidira com algo resistente e preso à areia; mesmo tão distante da maré, a praia era famosa por isso, sua profundidade ia aumentando vagarosamente, tanto que Sarah quase que poderia alcançar o chão se pulasse. Fincou o remo na areia para que a canoa parasse. Olhou para os dois lados, examinou o fundo, atenta. Então, despiu-se.
Sua roupa de fibra leve e rica seria inútil e incômoda nas águas. Por baixo, roupas velhas e escolhidas para a necessidade de entrar na água. De súbito, mergulhou habilmente no mar, e a água lambeu carinhosamente seus cabelos; aos poucos o corpo ajustava-se à temperatura fria; ela não sentia dificuldade em abrir completamente os olhos. Dirigiu-se sem pressa ao obstáculo, segurando a respiração sem dificuldade. Apenas um pedaço era visível; a maior parte da caixa de madeira escura estava soterrada. Sarah tirou uma pequena lâmina que trazia amarrada à cintura, pôs-se a cavar rapidamente; com um grande esforço pôde retirar a caixa inteira. Voltou à superfície, a caixa segura em suas mãos, surpreendentemente leve. Subiu na canoa e procurou por um fecho na face frontal da caixa, decorada habilmente com flores e arranjos. Não havia nenhum.
Esquecera de seu objetivo, ansiosa para examinar a caixa; esquecera que não dispunha de muito tempo. Logo, vozes masculinas fizeram-se ouvir; e, ao olhar à sua volta, percebeu o que a curiosidade lhe custara: mais uma tentativa perdida.Cinco barcos com três homens cada um a rodeavam, e um deles já havia amarrado uma corda ligando seu barco à canoa de Sarah. Não fizeram perguntas, Sarah já sabia o que faziam ali. Suspirou, frustrada, e resistiu ao impulso de lançar aquela caixa ao mar. A canoa foi puxada pelo barco, não para o norte, não para o seu destino; mas de volta à sua simplória existência na praia.
*
Jad sucumbiu ao choro. Seu rosto já marcado pelo tempo contraiu-se; suas mãos enrugadas tremeram, seus olhos miúdos molharam a face. Ela olhou para o marido, desesperada.
- Mandou todos os seus homens?
- Mandei – a voz dele revelava impaciência.
- Mandou procurarem em direção à ilha?
Apenas um murmúrio de afirmação como resposta; marcado pela frieza desumana que se via em seus olhos. Nenhuma palavra de carinho ou consolo, apenas sua presença insípida; irredutível.
- Acha que vão encontrá-la, Marcel? – disse Jad entre soluços, ávida por uma palavra de esperança.
Um suspiro cansado. Nenhuma emoção.
- O mar é grande.
- E se ela chegar na ilha? E se ela encontrar... – Jad parecia aterrorizada em pensar na hipótese.
- Chega, Jad – não era um pedido, tampouco algo para tranqüilizá-la; ele apenas desejava que ela parasse de perturbá-lo.
- ... o que será de nós, meu Deus? – ela pareceu não ouvi-lo.
Marcel chutou o pequeno banco de madeira à sua frente. Seus olhos incharam de fúria incontida.
- Cale a boca! – ela olhou para ele como se acabasse de perceber que ele estava ali. Suas lágrimas rolaram sozinhas. Levantou-se.
- Você se tornou mais frio e duro que uma pedra de gelo. Um monstro. Atroz como aqueles homens que tanto desprezava na guerra! – ela saiu sem olhar para trás, o corpo curvado pela velhice e sacudido pelo que restou de seus soluços. Marcel arfava. Suas mãos grossas permaneciam contraídas, mas seus olhos já não demonstravam nenhuma emoção.
Na sala contígua, Jad sentava na mesinha de centro, e rezava por perdão a um Deus que não acreditava mais; apenas pela carência de expor suas lamúrias. E pedia, sem fé, mais a si mesma do que a alguma divindade; que Sarah não chegasse àquela ilha.
*
Sarah desvencilhou-se do aperto do soldado no braço. Ele mantinha-se próximo demais às suas costas, e ela sentia seu cheiro podre de fumo e sua risada maliciosa. Ele a conduzia até a porta do lugar onde menos desejava estar; sua casa.
A mansão branca brilhava ao Sol que já descia no céu. O estábulo enorme do outro lado do lago não se comparava à monumental construção à sua frente, antiga mas renovada; em ótimo estado. Ao avistar a velha senhora correndo em direção à Sarah, o soldado se afastou. Jad abraçou a filha com fervor, mas ela ignorou o abraço; continuou impassível agarrada à caixa já seca pelo Sol.
Jad conduziu a filha ao seu quarto, e a deixou sozinha. Sarah deitou-se em sua cama, frustrada; enfiou a caixa na gaveta de sua penteadeira e suspirou. Podia até contar os segundos que faltavam. A porta se abriu com estrondo. Seu pai, cheirando a uísque e tomado pela fúria, avançou para ela com uma cinta na mão.
*
Naquela noite, Sarah não dormiu. Suas pernas ainda ardiam com a surra que levara no final da tarde. A Lua já ia alta no céu, mas seus olhos bem abertos examinavam a caixa à sua frente. Fechada. Nenhum cadeado. Apenas uma tampa pregada à caixa tão fortemente que nenhuma fresta lhe era perceptível. As cabeças dos pregos afundados na madeira estavam enferrujadas, e Sarah perdera horas limpando todo o limo que encobria a caixa.
Vasculhou suas coisas, mas não encontrou nada que pudesse abrir o pequeno baú; desceu pé ante pé as escadas cobertas de veludo vermelho, e saiu pela porta dos fundos da cozinha; sem fazer o menor ruído, a caixa aninhada em seus braços frios.
Respirou o ar fresco da noite. Sentiu a grama roçar seus pés descalços, ouviu o murmúrio incessante dos grilos; pressentiu o cheiro de jasmins. Aproximou-se do lago, que lhe parecia um grande espelho imóvel, reverenciando a Lua; o contornou, em direção ao estábulo. Distinguiu, no escuro, o vulto da oficina de seu pai, contígua à construção de madeira clara.O estabelecimento cheirava a mofo. Sarah prendeu a respiração enquanto acendia o pequeno lampião pendurado na porta encostada; entrou silenciosa na oficina, em busca de alguma ferramenta útil. Não teria coragem de serrar a caixa, precisava de um pé-de-cabra ou algo parecido... abriu inúmeras caixas de ferramentas situadas nas prateleiras atrás do balcão, mas não encontrou nada que servisse. Desanimada, abriu um armário encostado entre a porta e o canto da parede; seu rosto brilhou de alegria ao encontrar um grande pedaço de ferro moldado exatamente como precisava; apoiou a caixa cuidadosamente no balcão e pegou o ferro com as duas mãos. Precisaria de muita força. Pegou um serrote no meio da sessão de marcenaria, abriu uma pequena fresta onde pudesse encaixar o ferro. Colocou a caixa no chão, posicionou-se, e encaixou a ponta do pé-de-cabra na fresta aberta pelo serrote. Pressionou para baixo, apoiando todo o seu peso. A caixa rangeu.
Pressionou de novo. Sentiu a tampa levantar um pouco.
Respirou fundo, tirou os cabelos suados do rosto. Pressionou mais uma vez.
A tampa da caixa voou, foi parar atrás do balcão, fazendo estardalhaço. Sarah agarrou a caixa e correu atrás da tampa, ágil; seus passos leves estavam acostumados com a noite. Em alguns minutos, estava de volta ao quarto, a caixa aberta sobre as mãos pequenas.
Sentou-se em sua cama, feliz por finalmente poder ver seu conteúdo. Ao vislumbrar uma pilha de papéis amarelados completamente preenchidos por palavras, a lápis, desapontou-se. Folheou-os, e leu a primeira folha.
“Ela será fruto de uma história de amor.
Será morena, bonita, com lábios carnudos e cabelos presos.
Participará de vários tipos de misticismo, mas nunca acreditará em nenhum deles.
Saberá se comportar diante dos outros, mas terá medo da intimidade.
Será egoísta, e seu orgulho será um mártir.
Mentirá, e suas mentiras a aprisionarão.
Seus arrependimentos serão seus castigos.
Sofrerá, mas também será feliz.
Presenciará desgraças, mas nunca se tornará uma pessoa amarga.
Terá uma vida marcada por segredos.
Temerá a morte, e todos os desconhecidos.
Terá piedade, ansiedade e nunca conhecerá a paz.
Demorará a conhecer o amor, e quando o conhecer, não saberá usá-lo.
Será criada sob o gelo, mas nunca perderá a esperança.
Amará a magia, as histórias infantis e o sol.
Aprenderá a muito custo que nem todas as histórias têm um fim concreto, a maioria se perde no começo de outra.
O passado será o seu maior inimigo.
Escolherá a ignorância à ciência das verdades terríveis.
Verá tempestades em garoas, chorará lágrimas inúteis.
Sorrirá de verdade pela primeira vez aos dezessete anos.
Desafiará o destino.
Morrerá tarde demais.”
Uma assinatura marcava o final daquela profecia, legível e simples.
”Marise”.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
- prefácio;
“O silêncio é uma obra divina”, pensou Marise. Seus olhos fechados escondiam asatisfação estampada em seu rosto. O frio, o escuro; as reflexões fluíam como água; o instante. O cheiro perdido no ar limpo. A sintonia.
Abriu os olhos. Vislumbrou o papel em branco à sua frente. O que viria agora?
Pôs-se a escrever. A sua mão morena voava de um lado para o outro, mas sua caligrafia permanecia inalterada pela pressa; uma idéia se sobrepondo à outra, frases interrompidas, palavras riscadas. A ponta do lápis roçando o papel, o pó do grafite manchando suas mãos; podia descrever tudo com detalhes, cada sensação descrita em sinestesia, podia sentir tudo.
A história surgia inconstante, um embrulho disforme de informações jogadas, com um único sentido implícito, perceptível, embora inconscientemente. O exílio acarretava um sentido contrário do esperado, a paz e todas as suas conseqüências. Marise o procurava em todos os momentos do dia, obtendo apenas aqueles instantes em seu quarto. Breves, e densos. Muito breves.
O sorriso se formara em seu rosto. Já estava na hora de desmanchá-lo.
- Marise! – a porta se abriu de súbito.
O lápis caiu no chão, a folha incompleta, uma palavra na metade. Marise sentiu o gosto da raiva na boca.
- O que foi?
O rosto da freira não demonstrava maior satisfação.
- Espero que essa folha não seja o que eu penso.
- A senhora pensa?
- Basta de suas grosserias, Marise! Dê-me o papel!
Marise sabia que seria inútil insistir. Sua mão tremia quando entregou a folha a Irmã Sofia.
- E da próxima vez que você perder a missa escrevendo essas baboseiras imorais...
Ela pareceu engolir o resto da frase. Saiu, batendo a porta, não sem antes pegar o lápis do chão e guardá-lo no bolso de suas vestes.
Abriu os olhos. Vislumbrou o papel em branco à sua frente. O que viria agora?
Pôs-se a escrever. A sua mão morena voava de um lado para o outro, mas sua caligrafia permanecia inalterada pela pressa; uma idéia se sobrepondo à outra, frases interrompidas, palavras riscadas. A ponta do lápis roçando o papel, o pó do grafite manchando suas mãos; podia descrever tudo com detalhes, cada sensação descrita em sinestesia, podia sentir tudo.
A história surgia inconstante, um embrulho disforme de informações jogadas, com um único sentido implícito, perceptível, embora inconscientemente. O exílio acarretava um sentido contrário do esperado, a paz e todas as suas conseqüências. Marise o procurava em todos os momentos do dia, obtendo apenas aqueles instantes em seu quarto. Breves, e densos. Muito breves.
O sorriso se formara em seu rosto. Já estava na hora de desmanchá-lo.
- Marise! – a porta se abriu de súbito.
O lápis caiu no chão, a folha incompleta, uma palavra na metade. Marise sentiu o gosto da raiva na boca.
- O que foi?
O rosto da freira não demonstrava maior satisfação.
- Espero que essa folha não seja o que eu penso.
- A senhora pensa?
- Basta de suas grosserias, Marise! Dê-me o papel!
Marise sabia que seria inútil insistir. Sua mão tremia quando entregou a folha a Irmã Sofia.
- E da próxima vez que você perder a missa escrevendo essas baboseiras imorais...
Ela pareceu engolir o resto da frase. Saiu, batendo a porta, não sem antes pegar o lápis do chão e guardá-lo no bolso de suas vestes.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
- quarenta e três anos!
Eu larguei a televisão e o sofá, ignorei os protestos do meu corpo cansado, e vim aqui. Apesar da minha promessa de que iria dormir o dia todo hoje, uma história se formava na minha cabeça, e eu precisava começá-la. Eu abri o Word, pois estava tão inspirada que seria capaz de escrever duzentas páginas tão rápido quanto minhas mãos permitissem.
"E agora, o que está acontecendo comigo?"
Foi como se eu tentasse segurar água com as minhas mãos (peço desculpas pela metáfora poética, mas eu acabei de ler um livro sobre uma fantasia épica e estou impregnada). A história, a inspiração, tudo passou como se alguém tivesse apagado tudo da minha mente. Tudo se foi, menos a vontade de escrever.
Tá, sem dramas. Eu nunca tive dificuldade em escrever. Sempre que eu pensava, eu escrevia; eu formulo frases sobre meu cotidiano ao longo de cada dia, na minha cabeça. É tudo uma coisa só. E, como eu ainda não perdi a minha capacidade de pensar, alguma coisa estava errada, certo? Bom, o que importa é que eu já tinha até esquecido a minha história e estava absoluta e completamente frustrada. E eu odeio ficar frustrada, porra. É como se você pudesse ver um rio de idéias pra começar, e todas elas estivessem fora do seu alcance. Você pensa, parece bonito, e quando você escreve parece infantil. Diabos!
Aí eu liguei pro meu pai; digamos, que ele escreve monstruosamente bem (eu ainda posto algum texto dele aqui), e que é meio que a minha inspiração personificada. Hoje é o aniversário dele, e eu liguei pra ele pra perguntar o que estava acontecendo comigo (eu sou mesmo uma filha desnaturada). E ele me disse assim (não, eu não vou esquecer isso nunca): "Você perde as suas histórias por que não acredita que elas sejam realmente boas. Agora para de frescura e vai lá, escreve o que você tá pensando, pra depois você mostrar pro seu pai aqui que se orgulha de você".
Eu acho que essa história é uma daquelas muito fáceis de adivinhar o final.
E ah, eu pensei em fazer uma homenagem pra ele aqui, e então eu pensei que não haveria homenagem melhor do que essa; a maior fonte de admiração que eu tenho dele. E ah, a história? Não vou mostrar pra ninguém por enquanto. Mas está ficando grande.
(parabéns pai *-*)
"E agora, o que está acontecendo comigo?"
Foi como se eu tentasse segurar água com as minhas mãos (peço desculpas pela metáfora poética, mas eu acabei de ler um livro sobre uma fantasia épica e estou impregnada). A história, a inspiração, tudo passou como se alguém tivesse apagado tudo da minha mente. Tudo se foi, menos a vontade de escrever.
Tá, sem dramas. Eu nunca tive dificuldade em escrever. Sempre que eu pensava, eu escrevia; eu formulo frases sobre meu cotidiano ao longo de cada dia, na minha cabeça. É tudo uma coisa só. E, como eu ainda não perdi a minha capacidade de pensar, alguma coisa estava errada, certo? Bom, o que importa é que eu já tinha até esquecido a minha história e estava absoluta e completamente frustrada. E eu odeio ficar frustrada, porra. É como se você pudesse ver um rio de idéias pra começar, e todas elas estivessem fora do seu alcance. Você pensa, parece bonito, e quando você escreve parece infantil. Diabos!
Aí eu liguei pro meu pai; digamos, que ele escreve monstruosamente bem (eu ainda posto algum texto dele aqui), e que é meio que a minha inspiração personificada. Hoje é o aniversário dele, e eu liguei pra ele pra perguntar o que estava acontecendo comigo (eu sou mesmo uma filha desnaturada). E ele me disse assim (não, eu não vou esquecer isso nunca): "Você perde as suas histórias por que não acredita que elas sejam realmente boas. Agora para de frescura e vai lá, escreve o que você tá pensando, pra depois você mostrar pro seu pai aqui que se orgulha de você".
Eu acho que essa história é uma daquelas muito fáceis de adivinhar o final.
E ah, eu pensei em fazer uma homenagem pra ele aqui, e então eu pensei que não haveria homenagem melhor do que essa; a maior fonte de admiração que eu tenho dele. E ah, a história? Não vou mostrar pra ninguém por enquanto. Mas está ficando grande.
(parabéns pai *-*)
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